Lomadee, uma nova espécie na web.
Gica Vargas (ABR/2005)
Gica Vargas começou a pegar onda em 1981. Em maio de 1984, aos 21 anos, foi mãe e seu marido Valdir Vargas era surfista profissional na época.
"Ele e eu vivíamos de patrocínio, até que em Agosto de 1985 a minha vida mudou com a morte do pai dele no interior do Paraná. Nos mudamos para Foz do Iguaçu definitivamente no início de 1987 e só retornei ao Rio no início de 1995. Fiquei quase 10 anos sem quase pegar onda e nada de competição. Quando retornei ao Rio, o bodyboarding estava todo mudado: diversos tipos de pranchas, pés-de-pato, gente nova competindo, manobras afiadas. Foi um recomeço que nem imaginei que haveria um dia. Mas, eu voltei. "

(por Renata Cavalleiro)


Palestra de Kung em 2004: uma menina! | Foto: Neca Castro

1 – Como foi que você começou a se interessar pelo esporte, já que na época ele era uma novidade e nenhuma garota era adepta?
Eu fui criada na beira da praia no Leme e sempre ia para Cabo Frio nos fins de semana e feriados. No Leme eu adorava me jogar de peito nas ondas. Eu tinha uns 12 anos, sempre nadei muito bem e não me assustava com as ondas quebra-côco de lá. Conheci o surf em 1975 porque uns meninos que moravam no meu prédio começaram a surfar de prancha. Achei o máximo e a minha idéia inicial era surfar de prancha de surf. Cheguei até a ver uma prancha para mim, mas achei o esporte muito masculino. Quando fui a Miami , vi numa revista de surf gringa um anúncio da prancha Morey Boogie. Achei que seria o ideal já que usaria um pé de pato junto, o que tornava a coisa até mais segura. Trouxe a minha primeira prancha em 1981. Ela era rosinha porque eu sempre me preocupei em também ser bem feminina. O bodyboarding me fez unir o útil ao agradável.Foi uma surpresa para o meu namorado Valdir Vargas (hoje meu marido) que na época estava voltando de competições de surf na Austrália e me encontrou pegando onda e mais feliz.

2 - Você sofreu algum tipo de preconceito?
Lógico que sofri preconceito. Algumas meninas achavam que eu queria me exibir no outside e me olhavam meio torto. Colocava o biquini e um maiô por cima (para o biquini não cair na hora do caldo). Nunca me preocupei se tinha gente olhando o meu bumbum. Eu só queria pegar onda e me posicionava no pico cheia de vontade. Todos me respeitavam porque sabiam que eu era namorada do Valdir. Recebi o apoio de vários amigos surfistas e isso foi muito importante. Fiquei "reinando" sozinha nos mares por uns dois anos até haver o boom do bodyboarding feminino no Brasil.


Junto a várias bodyboarders no chá de bebê de Soraia Rocha
3 - E as competições ? Como foi o seu primeiro campeonato, e como foi a primeira disputa com outras mulheres?
Conheci o Marcus Cal Kung no Leme. Eu estava pegando onda e vi aquele careca vindo em minha direção. Achei que ele era Hari-krshina e que queria me vender incenso. Ficamos amigos e um tempo depois ele me colocou a maior pilha para competir num campeonato que um pessoal conhecido dele estava organizando, mesmo eu sendo a única mulher. O primeiro campeonato foi em Piratininga, Niterói em Setembro de 1983. O mar tinha um tamanho e estava de leste, fechando muito (O Quebra-mar da Barra estava de gala neste dia). Passei uma bateria , mas valeu pela experiência e fiz grandes amigos. Teria me dado melhor se as condições fossem outras.

O primeiro campeonato com baterias exclusivamente para mulheres foi um ano depois no Quebra-mar da Barra. Eu já era mãe do Matheus que tinha 4,5 meses. Eu o amamentava entre uma bateria e outra. Acabei ganhando, mas o campeonato que eu mais gostei de ganhar foi em Dezembro de 1984 porque tinha altas ondas no quebra-mar, com água transparente, perfeito de leste, dia de sol, praia lotada. Um espetáculo. Talvez a primeira vez que o público via mulheres dropando aquelas ondas. Além disso, eu me diverti muito.

4 - Sendo a primeira bodyboarder brasileira, quais os prós e contras que você observa entre o passado e o presente do Bodyboarding ?
No passado tivemos que enfrentar os primeiros wipe-outs, falta de técnica, as primeiras rabeiradas e patrocínios bem modestos. Havia um sonho aliado à boa vontade de pessoas como o Kung que ajudaram a fazer o esporte crescer e se organizar. O plano Collor ajudou a derrubar sonhos com o confisco da poupança, e o plano Real, com o nivelamento do câmbio a nosso favor, ajudou a mandar atletas brasileiros para o exterior, principalmente as meninas. Passamos a ser considerados uma potência do bodyboarding e isso me encheu de orgulho. Não participei desta época porque eu morava em Foz do Iguaçu, interior do Paraná. Hoje o surf feminino veio tirar um pouco o espaço do bodyboarding, vindo em forma de modismo. Além disso, o câmbio do dólar está dificultando a vida das atletas. Mas para mim continua sendo o esporte que faz a minha cabeça, que me faz esquecer problemas da vida cotidiana e me deixa bonita.

Ao lado de Cláudio Marques, dois pioneiros| Foto: Renata Cavalleiro
5 - E o que pensa do futuro do esporte no Brasil ?
No Brasil tanto o Bodyboarding quanto o surf estão sofrendo com a falta de investimentos. O patrocinador dá uma verba que para ele é muito para dar e para o atleta é pouco para receber. Sei disso porque meus filhos são competidores de surf. Além disso , vi no noticiário que o prefeito César Maia cortou verba para o Teatro, Cultura e alguns esportes. A prioridade deve ser o Pan 2007. Portanto, os atletas nunca deveriam deixar de estudar para se dedicar só ao esporte porque aqui a gente não sabe o dia de amanhã. Pegar onda, sempre, independente de ter outra profissão.

6 - Quais foram as viagens mais marcantes para pegar onda?
A primeira viagem marcante foi para Bali em 1982. A ilha era demais nessa época, com pouca gente , muitos coqueiros e pouco crowd. Uma cultura completamente diferente de tudo o que eu já tinha conhecido. Fui em Fevereiro e peguei o outro lado da ilha: Nusa Dua. Perfeito e quebrando lá fora. Fui de barco até o outside com dois brasileiros. Apesar de ter ficado só 10 dias , fiquei maravilhada. Minha ida para o Peru em janeiro de 1983 também foi ótima. Sempre peguei onda, mas também conheci o lado histórico dos lugares. Fui a Machu-pichu. Demais!!!
Outra viagem maravilhosa foi em 2000 para o Hawai com meu marido e meus três filhos. Pegamos dias lindos de terral, sol, água transparente, altas ondas, coisa de filme. Nunca pensei na minha vida viver um momento assim e que teria uma família em que todos pegassem onda. A vida é uma caixinha de surpresas.


Valdir e Gica no casamento de Leila Alli | Foto: Renata Cavalleiro
7 - Fale um pouco sobre seu cotidiano, sobre sua família que pega onda junto com você , os picos onde vocês caem...
Nunca gostei de acordar tarde e as melhores ondas no Brasil são de manhã, antes do vento entrar. Somos acostumados a acordar cedo e caímos geralmente em frente de casa no Alfa Barra. Detesto crowd e só saio para procurar onda se não tiver condições aqui em casa. Faço ginástica localizada todos os dias. Não fumo, não bebo. Gosto de passar uma imagem saudável para os meus filhos. Além disso me preocupo em me manter conservada. Pegar ondas com meus filhos é incrível. Quando vejo cada tubo deles bem de pertinho penso que sou muito feliz e é maravilhoso ter essa oportunidade, que nem todo mundo tem.

8 - De que forma você incentivaria as meninas de hoje ? Qual seu recado para elas ?
Só posso dizer que o bodyboarding é um esporte ótimo para o corpo da mulher, principalmente para evitar celulite nas partes onde mais tendemos a amarzenar essas gordurinhas indesejadas (bumbum, pernas, barriga). Se tenho um corpo legal após ter tido três filhos, com certeza foi porque sempre peguei onda. Além disso, o contato com o mar e com a natureza faz bem também para a alma.
O recado para elas: Arrumem um companheiro que surfe ou no mínimo não te atrapalhe. E , depois de pegar altas ondas,dê muito beijo na boca dele!!!

 
 

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