Leila Alli a “Tuberider” carioca
Disposição Pura para as ondas do Hawaii
“Boas energias estão voltadas para o nosso esporte no ano de 2010, destaque para as ondas perfeitas que quebraram no mundial masculino de Pipeline neste último mês de fevereiro. E falando em ondas perfeitas em Pipeline, o Urdanlife, com muito prazer, homenageia uma das melhores atletas femininas da história do Bodyboarding mundial, a carioca Leila Alli.
Nascida e criada no Rio de Janeiro, a bodyboarder sempre foi muito ligada às ondas mais tubulares. O seu começo no bodyboard foi praticamente nas ondas do Leme, berço do esporte e uma das melhores ondas no país. As suas melhores atuações nas competições, na maioria das vezes, ocorreram quando as condições estavam realmente boas. Leila sempre deixou claro que gosta de ondas perfeitas, fundos de pedras, e é uma catedrática quando o assunto é tubos. Uma das primeiras meninas a morar no Hawaii (onde reside com a sua linda família até hoje), Leila já tem, acumuladas em sua bagagem muitas horas de tubos. O suficiente para ser considerada umas das melhores tuberiders da história do Bodyboarding feminino. Mas não é só de alegria que ela vive, assim como todo atleta, a tuberider já teve sérios problemas com contusões devido a sua coragem de dominar as grandes ondas do Hawaii. Foi a única atleta feminina que ganhou duas notas dez unânimes dos juízes, em uma competição em Pipeline/Hawaii em toda a história deste evento.
Com a concessão do blog Urdanlife, esta linda mulher, amiga, atleta e mãe, conta tudo sobre as suas aventuras no Bodyboarding, e fala também de seu mais novo projeto, o Surf Bus de Oahu”. Com a palavra, Leila Alli:
Tempo de esporte: Vinte e três anos, desde que eu nasci! Ha ha ha!!
Tempo de competição: Eu competi por quase 20 anos, mas agora só compito em Pipeline mesmo, já que e a única chance que a gente tem de surfar só com 3 pessoas na água! To pagando a inscrição ate U$1000!
Patrocínio: BeWet Wetsuits, Kpaloa
Melhor tubo já surfado: Melhor não tem, mas o tubo mais largo foi em Padang Padang, o mais longo foi em Super Sucks. Tiveram uns legais em G-land e Pipe/Backdoor também.
Maior mar que já surfou: Maior mar foi em Waimea, numa época em que não tinham 50 cabeças dentro d’água e o perigo de pranchas voando em cima de você não era maior do que o tamanho das ondas. Entrei sem noção e quando eu já estava lá dentro, me disseram: “Ao meio dia a baia vai fechar”. Quando a baia fecha, quer dizer 25 pés de onda… Olhei no meu relógio e eram quinze para o meio dia! De repente todo mundo saiu remando desesperadamente e iguais a loucos para o outside, os surfistas de ondas grandes com aquelas pranchas enormes davam duas braçadas e moviam-se bem mais rápido do que eu. Eu abaixei a cabeça e bati os pés e os braços como nunca tinha feito antes, a baia fechou e eu me salvei por pouco. Depois, o salva vidas foi de Jet ski até lá fora perguntar se eu estava ok, pedi uma carona para sair e ele virou para mim e disse: “Você entrou sozinha, agora tem que sair por si mesma.” Peguei umas duas ondas ainda e saí do mar.
Pior caldo: Um dos piores foi em Pipeline no campeonato de 2007 que eu sai rolando no coral, bati com a cabeça, ombro, costas e ainda tomei as próximas duas ondas na cabeça! Mas já tomei umas ondas em Waimea anos atrás que eu perdi a noção do que era o fundo e o que era a superfície, eu não sabia se nadava para cima ou para baixo, tudo escuro. E de repente quase sem ar, eu me toquei de escalar meu estrepe que estava esticado segurando a minha prancha que estava boiando e me ajudando a não afundar ainda mais.
Melhor onda do mundo: Uma só eu não tenho… Destaco três em particular: Pipeline no Hawaii e Padang e Super Sucks na indonésia.
Pior onda do mundo: Qualquer beach break com meio metro de onda cheia…
Uma manobra: Eu acho que passar por dentro da onda é a melhor manobra que existe…
Melhor bodyboarder feminino que você já viu: Neymara Carvalho
Melhor campeonato que já competiu: Pipeline 2002, eu tive um dez unânime para esquerda em uma bateria, e na bateria seguinte tive outro dez unânime para direita (Backdoor)! Eu estava tão amarradona de surfar altas ondas sozinhas em Pipe… Até que uma Porto Riquenha forçou uma interferência em mim, acabei perdendo na semi-final. Ainda contavam snake como interferência sua. Ela foi reto e eu ainda peguei um tubinho, mas com uma nota só, perdi… : (
Uma das fotos da sequência de tubo nota dez em Pipe. Foto cedida pelo fotógrafo americano residente no Hawaii Paul”Gordinho”)
Um filme de Bodyboarding: Ah, vários...
Um filme sem ser de Bodyboarding: “Quem quer ser um milionário?”
Uma comida: Mediterrânea
Uma bebida: Cerveja estupidamente gelada…. Mas tem que ser no Brasil!
Uma música: “Alive” Pearl Jam
Um sonho: Pegar um tubaço em Pipeline vindo lá de fora naqueles dias gigantes, saindo com baforado no canal. Uma daquelas que você vê, assiste do canal o cara dopando no caroço, já pondo para dentro half way no drop, dragging o rail totalmente… Iguais ao que o Mike Stewart e o Guilherme Tâmega pegam em toda temporada!
Quando e porque você resolveu morar fora do País?
Eu não resolvi… Simplesmente aconteceu. Em 1995 no primeiro ano do circuito mundial, eu fui do Havaí para a Austrália, conheci meu ex-namorado Ben Holland e ficamos juntos por 8 anos viajando pelo mundo afora e competindo o Tour, a antiga G.O.B (Global Organization of Bodyboarders). Depois eu fiquei na Indonésia por um tempo, voltei ao Havaí, casei e tive uma filha e fiquei por aqui onde é minha atual residência.
Você foi umas das primeiras meninas a surfar Pipeline, e até hoje, é umas das melhores nesta onda quando as condições estão perfeitas, o que você acha disso?
Poxa, obrigada pelo elogio! Eu gosto muito de Pipeline, só isso. Eu já passei muitos invernos caindo em Pipe o dia todo e tentando sempre melhorar a minha performance nesta onda, hoje em dia não faço mais isso devido ao crowd insuportável que aumenta todos os anos… São mais de 70 pessoas em dias normais, chegando a mais de 100 alguns dias. Entre locais, surfistas profissionais ou não, bodyboarders profissionais ou não… Quem foi, quem é, e quem quer ser está dentro d’água, e eu não tenho tempo para ficar por duas horas esperando para pegar 2 ou 3 ondas geralmente ruins… Porque a boa não tem nem como cogitar. Prefiro cair em outro lugar não tão bom, mas que não tenha tanta gente e que eu consiga pegar mais ondas. Mas é lógico que ainda caio em Pipe quando as condições são favoráveis = sem crowd!
Passeando bonito em um canudo em Pipe
Descreva Pipeline:
É uma onda perfeita… Acho o Backdoor mais difícil que Pipe. O crowd nesta onda atrapalha a sua performance mais do que tudo.
Tem um tipo de onda em Pipe que quando vem, ela vem um pouco mais de fora e um pouco mais para o lado, ela deixa você entrar mais fácil. Tem outro tipo que encavala muito rápido na bancada, ela até parece fácil, mas de repente é como se o fundo caísse. Isso acontece muito quando o mar sobe muito rápido…. A velocidade com que a onda chega à bancada e absurda.
Como é um dia perfeito na vida de Leila Alli?
Eu acordo com um bafinho de criança respirando bem perto do meu rosto falando: – “Mamãe vamos acordar?” Me levanto e sirvo o café da manhã, mais tarde faço nosso almoço, almoçamos e a levo (a filha Yasmin) para a escola. Depois vou para o North Shore, se as ondas estiverem de 6 a 8 pés vou para Backyards, uma onda mais light onde costuma ter poucas pessoas. O vento está parado, a água clarinha, você consegue ver o coral no fundo do mar. Pego onda por umas duas horas, pego a minha filha na escola e a gente vai para o parquinho brincar!
Caminhando para a bateria em Pipeline com a sua família desejando boa sorte
Além de ser uma ótima atleta dentro d’água, você também consegue sobressair como umas das meninas mais profissionais fora d’água. Nunca pensou em ser presidente de uma associação mundial na categoria feminina?
Desde que eu comecei a competir, eu sempre estive envolvida nas associações como representante da categoria feminina, tanto no circuito carioca, como no brasileiro e na IBA. Já pensamos em abrir uma nova associação aqui no Havaí para organizar campeonatos e etc. É um projeto que está na gaveta, mas que pode se tornar realidade no futuro.
Falando nas competições, como você vê o Bodyboarding feminino mundialmente?
O nível está crescendo muito, cada vez mais eu vejo as meninas saindo do feijão com arroz para ganhar campeonatos, tentando melhorar em ondas de conseqüência, fazendo manobras com pressão e procurando o tubo.
Como foi a sua decisão de virar freesurfer?
Foram varias coisas que me levaram a seguir esse caminho. Em primeiro lugar, eu nunca fui uma competidora das mais acirradas, depois tive uma série de contusões que dificultaram ainda mais o treinamento para poder competir de igual para igual, os patrocínios não estavam pagando legal e a vontade de surfar ondas boas sem pressão não me animava mais.

Se jogando em BackDoor em um dia épico
E o seu afastamento das ondas devido as suas contusões no joelho, como foi isso, já está tudo em perfeitas condições para pegar os tubos de Pipe?
Eu me afastei durante pouco mais de um ano e voltei bem devagar, eu acredito que estou bem melhor agora. Estirei o ligamento cruzado anterior no campeonato de 2007, e decidi não operar, então o cuidado é bem maior, eu tenho que estar sempre fortalecendo os músculos em volta para poder segurar a onda, literalmente. Foi uma boa chamada à realidade para provar o Power das ondas no Havaí, em especial Pipeline. Realmente você tem que estar preparado fisicamente para isso.
Você sempre foi considerada com uma das bodyboarders mais bonitas, nunca pensou na carreira de modelo, atriz ou algo do gênero que explore a sua beleza?
Obrigada!! Eu já fui modelo, mas não tinha muita paciência para ir à castings e sessões de fotos e etc…Quando o time brasileiro foi à Austrália no primeiro campeonato em Manly, eu levei meu book da Elite e a agencia da Elle Mcpherson, que era uma modelo reconhecida na Austrália, me chamou para fazer parte da agencia onde ela trabalhava, queriam que eu fosse para o Japão logo depois do campeonato… Só que a galera estava indo para Bali logo depois da Austrália e logicamente eu escolhi ir a Bali!! Uns anos mais tarde, quando eu morava na Austrália, uma foto minha do Eric Tungsten entrou na revista Inside Sports (uma revista de esporte e comportamentos como estas que existem no Brasil), num artigo com o titulo “the world’s most beautiful athletes” (os atletas mais bonitos do mundo)… Talvez eu pudesse ter seguido esta carreira, mas o Bodyboarding falou mais alto.
Representando o que todos sabem: as bodyboarders brazucas são muito belas
Falando em outras profissões, teve uma época em que você se empenhava bastante para fazer filmes de Bodyboarding (tanto para filmar, quanto para ser filmada) ainda faz algum trabalho neste tipo? Você ainda filma?
Eu filmei, editei e produzi 3 filmes de Bodyboarding feminino. O Spectrum, o Mentawaiis Challenge, e o ultimo foi o Hawaiian Dreams, mais voltado para o mercado japonês. Depois que eu tive minha filha, o tempo livre que me sobra eu quero estar dentro d’água, mais do que na areia filmando, mas estou super a fim de lançar um filme novo.. De repente ano que vem sai o próximo… Eu ainda colaboro com filmagens e edição em dois programas de esportes radicais femininos aqui no Havaí, são eles: FlyGirlz e Wahine Blue.
E sobre este seu novo projeto, o surf bus de Oahu, a galera do Brasil que não conhece Honolulu que vai gostar, como funciona?
O Surf Bus é quem paga as contas enquanto a gente acha tempo para se divertir!
Vou explicar: " The Surf Bus- North Shore Actvities Tour" - como o nome diz um ônibus que leva os turistas de Waikiki (cidade de Honolulu) para o North Shore (onde se encontram as grandes ondas havaianas), chegando lá eles fazem diversas atividades, não precisa necessariamente ser o surfe ou bodyboarding, mas pode ser também kayak, bicicleta, caminhadas, mergulho, stand up paddle.
A idéia é tirar o turista da inércia para fazer coisas legais no North Shore, e mostrar que há muito mais do que ondas para se fazer neste paraíso. Ao invés daquele tour que você só sai do “busum” para tirar fotos e sentar de novo, a gente bota a galera para se divertir mesmo. O link para o nosso site é: www.northshoresurfbus.com
" The Surf Bus- North Shore Actvities Tour"
Para finalizarmos com chave de ouro, fale como foi este drop sinistro em Pipeline? (foto e link do vídeo abaixo)
Foi tudo uma seqüência de acontecimentos: eu estava com o joelho já machucado, mas ainda a fim de me dar bem na competição. Acabei entrando ai veio essa onda e parecia muito boa, na mesma hora eu vi essa menina de Porto Rico vindo remando para cima da onda querendo ela a qualquer custo, então eu pensei comigo mesma: – “Ah, não… Outra Porto Riquenha no meu caminho não” (lembrando a interferência do outro campeonato de Pipeline) Eu comecei a remar com tudo, senti que estava meio atrasada, mas no principio do drop estava tudo sob controle, de repente a onda encavalou e fez tipo um degrau no meio do drop, eu perdi o rail e o resto você imagina…Bem, eu bati com a babeca, ombro, perna..sai rolando no coral, o que foi a minha sorte, porque não bati com tudo de uma vez só. Quando levantei, o salva-vidas já estava do meu lado e a gente levou mais duas ondas na cabeça, perdi a prancha, sai nadando, entrei de novo e fui para a final! Então ta valendo! NO PAIN NO GAIN
Um dos drops mais insanos feitos por uma mulher em Pipe (ou em qualquer outro pico!)
Link do vídeo desta onda acima: http://www.youtube.com/watch?v=nJnYXnc7Syw&feature=player_embedded
Fonte das fotos: arquivo pessoal da atleta